Feitas como uma arma

Festejada como uma das marcas de motocicletas mais antigas do mundo, a Royal Enfield entra no século 21 mantendo-se fiel às suas origens na produção de agulhas de costura, bicicletas e armas. Contribuindo com o exército britânico em duas guerras e mantendo-se viva na longínqua India, a Royal Enfield se prepara para levar seu legado de simplicidade e tradição adiante

Agulhas e colapsos financeiros

Em 1851, George Townsend iniciou uma empresa para produzir agulhas de costura. Em 1882, seu filho também chamado George, começou a produzir componentes para fabricantes de biciletas incluindo selins e garfos. A partir de 1886 bicicletas completas já eram vendidas sob os nomes Townsend e Ecossais. Mas este negócio sofreria um colapso financeiro cinco anos mais tarde. Albert Eadie, gerente de vendas da fabricante de canetas Birmingham’s Perry & Co Ltd, havia começado um negócio de componentes para fabricantes de bicicletas e Robert Walker Smith um engenheiro da D. Rudge & Co foram escolhidos pelo banqueiro de Townsend para gerenciarem o negócio e em 1892 uma nova companhia foi incorporada com o nome de Eadie Manufacturing Company Limited sediada em Snow Hill, Birmingham. Eadie conseguiu contratos do governo para fornecer peças de precisão para armas de fogo para a Royal Small Arms Factory em Enfield, Middlesex, com suas ramificações em Sparkbrook assumindo assim o nome Royal Enfield. Em 1896 eles também incorporaram uma nova companhia subsidiária, a New Enfield Cycle Company Limited, para lidar com o grande parte do ciclo de trabalho e em 1897 Enfield já estava produzindo bicicletas completas assim como peças para outras montadoras que adquiriram todo o ciclo de trabalho de Eadie.

A Enfield começou a diversificar os negócios com bicicletas motorizadas em 1901 e automóveis em 1902. O departamento de veículos motorizados foi alocado numa subsidiária separada, a Enfield Autocar Company Limited em Hunt End, Redditch em 1906. Entretanto, apenas 19 meses depois a Enfield Autocar anunciou perdas substanciais, e além do próprio Eadie, os acionistas não estavam dispostos a injetar mais capital, então em 1907 Eadie vendeu o controle da Eadie Manufacturing para a BSA. Albert Eadie e Robert Walker Smith foram nomeados diretores da BSA da proposta de venda ser apresentada aos acionistas. O novo negócio da BSA combinado com a Eadie fabricava de rifles militares e esportivos a bicicletas e seus componentes até carros motorizados.

Negócios na Índia

A Enfield Autocar, ou seja, a planta e o estoque, foram vendidos para a Alldays & Onions Engeenering de Birmingham. A Enfield Cycle Company assumiu as instalações em Hunt End. Em 1955, a Enfield Cycle Company fez parceria com a Madras Motors na Índia, formando a Enfield of India, com sede em Chennai, e começou a montar a motocicleta Royal Enfield Bullet 350cc em Madras. As primeiras motos foram montadas a partir de componentes importados da Inglaterra e a partir de 1957, a subsidiária indiana adquiriu as máquinas necessárias para a fabricação dos componentes que passaram a ser fabricados na Índia a partir de 1962.

Frank Walker Smith (1888-1962), o filho mais velho de Robert Walker Smith entrou para a Enfield Cycle Company em 1909. Nomeado Frank Walker Smith (1888-1962), eldest son of Robert Walker Smith, joined Enfield Cycle Company in 1909. Nomeado diretor executivo junto com seu pai em 1914, ele assumiu toda a responsabilidade pelo negócio quando seu pai faleceu em 1933. Após sua morte, a Enfield foi comprada por investidores da E & H P Smith que a revenderam por 82,5 mil libras para a Norton Villiers em 1967. A Norton Villiers adquiriu também 33% da Enfield of India, exceto os recursos da divisão de motores a diesel, bicicletas e peças sobressalentes de fora.

Primeiros modelos

Após realizar experiências com um de seus quadros de bicicleta pesada equipado com motor Minerva fixado no tubo frontal, a Enfield construiu sua primeira motocicleta em 1901 com 239cc. Em 1912, uma Royal Enfield Model 180 combinada com sidecar foi introduzida com um motor JAP V2 de 770cc correu com sucesso no TT Ilha de Man e em Brooklands. In 1914 a Enfield supriu o Departamento de Guerra Britânico com uma grande quantidade de motocicletas e também ganhou um contrato para fornecimento de motocicletas para o Governo Imperial Russo. Enfield utilizou seu próprio motor monocilíndrico dois tempos de 225cc e um V2 de 425cc. Também produziu uma motocicleta com 8hp com sidecar equipado com uma metralhadora Vickers.

Em 1921, a Enfield desenvolveu um novo motor V2 de 976 cc e, em 1924, lançou o primeiro monocilíndrico Enfield de 350cc de quatro tempos usando um mecanismo da Prestwich Industries. Em 1928, a Royal Enfield começou a usar os tanques em forma de bulbo e garfos dianteiros da viga com mola central, uma das primeiras empresas a fazê-lo. Apesar de operar com prejuízo nos anos de depressão da década de 1930, a empresa conseguiu contar com reservas financeiras para se manter. Em 1931, morreu Albert Eddie, um dos fundadores da empresa, e seu sócio, R.W. Smith, morreu logo depois em 1933.

As Royal Enfields militares de 1939 a 1945

Durante a Segunda Guerra Mundial, a Enfield Cycle Company foi convocada pelas autoridades britânicas para desenvolver e fabricar motocicletas militares. Os modelos produzidos para os militares foram as WD/CO 350 e WD/G 350 com comando OHV, e as WD/D 250, WD/C 350 e WD/L 570 com válvulas laterais. Um dos fatos mais conhecidos foi as Enfields serem projetadas para serem lançadas com pára-quedas junto com as tropas aéreas. A fim de estabelecer uma instalação não vulnerável ao bombardeio em tempos de guerra nas Midlands, uma fábrica subterrânea foi criada, a partir de 1942, na pedreira de Bath Stone em desuso, em Westwood, perto de Bradford-on-Avon, Wiltshire. Muitos funcionários foram transferidos de Redditch e uma propriedade pré-fabricada foi construída em Westwood para abrigá-los. Além de fabricação de motocicletas, a Enfield construiu outros equipamentos para o esforço de guerra, como "preditores" mecânicos para artilharia antiaérea: a fabricação de equipamentos de alta precisão foi ajudada pela temperatura subterrânea constante. Após a guerra, a fábrica continuou, concentrando-se na fabricação de motores e na usinagem de alta precisão. Após o encerramento da produção de motocicletas Royal Enfield, as atividades de engenharia de precisão continuaram até a extinção final da empresa.

Modelos do Pós-Guerra de 1946 e 1954

Durante o Pós-Guerra, a Royal Enfield retomou a produção dos Modelo G monocilíndrico de 350cc com comando OHV e Modelo J de 500cc, com estrutura traseira rígida e garfos dianteiros telescópicos. Estes eram modelos básicos de uso diário, em um mundo com fome de transporte. Uma grande quantidade de motos militares recondicionadas Modelo C com válvulas laterais e Modelo CO OHV monocilíndricos foram também oferecidos à venda, já que foram vendidos como excedentes por vários serviços militares.

Em 1948 desenvolveu-se uma suspensão traseira inovadora com molas, inicialmente para modelos de competição e de "trial" (semelhante às motos de enduro modernas), mas que foi logo introduzida na Bullet 350. Uma versão de 500cc apareceu pouco depois. Com a venda dos direitos de fabricação, gabaritos, ferramental e matrizes da Bullet para a Índia, as Bullet continuaram a ser fabricadas com versões e melhorias até hoje.

As bicilíndricas Meteors, Super Meteors e Constellations de 1949 a 1963

Em 1949 surge a versão de dois cilindros paralelos, na versão 500cc foi o precursor da série Meteor 500, Super Meteors 700 e Constellation 700 . Oferecendo um bom desempenho a um custo modesto, foram amplamente vendidas. A Royal Enfield Constellation 700 bicilíndrica foi descrito como a primeira superbike.

A categoria 250cc foi importante no Reino Unido por ser a maior cilindrada que uma pessoa sem habilitação poderia pilotar. No final dos anos 1950, a Royal Enfield uma grande quantidade de motos 250, incluindo a GP esportiva e uma scrambler, a 'Moto-X', que utilizava um quadro modificado da Crusader e um motor Villiers Starmaker . A Clipper foi o modelo básico para viagens, sendo a Crusader, a campeã de vendas, uma 248cc monocilíndrica com comando por varetas que desenvolvia 18 hp. Em 1965, uma variante com 21 hp chamada Continental GT, com tanque de fibra de vidro vermelho, câmbio de 5 marchas (opcional na Crusader), semi-guidões, pedaleiras requadas, escapamento esportivo e banco monoposto foi lançada atraindo boas vendas com seu estilo de corrida. A carenagem integral "Avon Speedflow" era vendida como opcional nas cores vermelha e branca. Outras variantes foram a Olympic e a Super 5, notável pelo uso da suspensão frontal tipo leading-link (todas os demais modelos 250 tinham garfos telescópicos convencionais) e a 250 Turbo Twin, equipada com o motor dois tempos Villiers bicilíndrico de 247cc. A Royal Enfield GP-5 estreou no Manx Grand Prix em Septembro de 1964. Desenvolvida em parceria com o gerente da Royal Enfield Racing, Geoff Duke sua primeira aparição foi no Earls Court Show em Novembro de 1964. Usando um quadro de tubos duplos, garfos leading-link e um tanque que formava uma peça única com o banci, esta 250 dois tempos era similar a outras motos da mesma categoria oferecidas pelas concorrentes Greeves, Cotton, DMW e particularmente Villiers, que fornecia motores para estas marcas e muitos outros fabricantes incluindo o motor de competição Starmaker usado na esportiva Scorpion na scrambler Sprite.

Durante a ascensão dos fabricantes japoneses de motocicletas no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, a fabricante britânica fez uma tentativa final com a Interceptor de 692cc em 1960 e 1961 seguida pelas Interceptor Serie I e Serie II de 736cc entre 1962–1968. Fabricada largamente para o mercado norte-americano, elas possuíam grandes quantidades de crono e performance, completando um quart de milha em menos de 13 segundos com velocidades próximas de 175 km/h. Elas foram muito populares nos Estados Unidos, mas o clássico erro de não conseguir suprir a demanda, significou o fim da última Royal Enfield legitimamente inglesa.

A fábrica de Redditch cessou a produção em 1967 e a fábrica de Bradford-on-Avon fechada em 1970, que marcou o fim da Royal Enfield Inglesa. Após o fechamento das fábricas , cerca de 200 motores da Interceptor Serie II ficaram abandonados nas docas em 1970. Estes motores tinham como destinatário Floyd Clymer nos Estados Unidos, mas Clymer e seu agente de exportação Mitchell's de Birmingham, deixou os motores para serem descartados. Eles então foram oferecidos aos irmãos Rickmans que sempre tiveram problemas com suprimentos de motores, então uma quantidade limitada de Rickman Interceptors foram prontamente construídas.

No entanto, no que diz respeito à marca original, a Royal Enfield é a única marca de motocicletas que abrange três séculos e ainda está em funcionamento, com produção contínua. Alguns dos edifícios originais da fábrica de Redditch permanecem e fazem parte do Legado Industrial de Enfield.

O legado Royal Enfield continua

De 1955 a 1959, as Royal Enfields eram pintadas de vermelho, e vendidas nos Estados Unidos como motocicletas Indian pela Brockhouse Corporation, que detinha o controle da Indian Sales Corporation (e portanto da Indian Motorcycles) e havia cessado a produção de todas as Indians americanas na fábrica de Srpingfield em 1953. Mas os norte-americanos não se impressionaram pela engenharia da marca e esta jogada de marketing acabou em 1960, e em 19611, as Royal Enfields estavam disponíveis no mercado norte-americanos com seu próprio nome. A maior Royal Enfield "Indian" foi a Chief de 700cc, como suas antecessoras americanas.

A Royal Enfield produziu bicicletas em sua fábrica de Redditch até ser fechada em 1967. A última bicicleta da companhia foi a Revelation, lançada em 1965. A produção de motocicletas cessou em 1970 e a companhia original de Redditch, baseada em Worcestershire foi dissolvida em 1971. Porém a Enfield of India continuou a produção da Bullet, em linha desde 1949 até os dias de hoje e começou a nomear suas motocicletas como Royal Enfield a partir de 1999. Uma ação judicial sobre o uso do "Royal" foi movida por David Holder, proprietário da marca registrada Royal Enfield, foi julgada a favor da Enfield of India autorizada a continuar vendendo motos sob a marca Royal Enfield, além de promover uma modernização em sua marca e em sua linha de produtos, como a adoção de injeção eletrônica e freios ABS, além do lançamento de novos modelos como a trail Himalayan, e as bicilíndricas Interceptor e Continental GT . Já atuante na Europa, Austrália e África do Sul, anunciou em 2015 a implantação de uma sede nos Estados Unidos com o objetivo de abrir 100 revendas no país e oferecer seus modelos de 500cc, num mercado que julga carente de motos nesta faixa de cilindrada. E mais recentemente iniciou operações no Brasil, Indonésia e América do Sul.


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