Três mudanças de paradigma

As convicções sobre como desenvolver seus produtos fazem parte da história de todos os fabricantes. Estas convicções, com o passar do tempo se tornam tradições que são valorizadas tanto pelas marcas quanto pelos consumidores. Mas com o passar do tempo, as necessidades e movimentos do mercado forçam projetistas e dirigentes de marcas como BMW, Harley-Davidson e Yamaha a mudarem sua filosofia e continuarem relevantes no mercado. Conheça três exemplos de empresas que quebraram seus paradigmas para continuarem atuais

A BMW foi fundada em 1916 com o objetivo de fabricar motores de aviação, porém após a Primeira Guerra Mundial se viu obrigada a diversificar seus negócios, uma vez que a Alemanha estava proibida de fabricar aviões para uso militar. Assim, em 1923 passou a fabricar motocicletas, com a R32 sendo seu primeiro modelo. Esta motocicleta era equipada com o motor M2B33 de 2 cilindros opostos de 494 cm³ a ar, configuração que com o passar das décadas, se tornaria padrão entre todos os modelos da marca. Sempre ligada à qualidade e durabilidade de seus modelos, a BMW passou a incorporar tecnologias e soluções que tornariam seus modelos cada vez mais diferenciados e complexos. A adoção da suspensão traseira Paralever que integra amortecedor e eixo-cardã numa única peça a partir dos anos 1950, e da suspensão dianteira Telelever (conceito Saxon-Motodd) que separa o amortecedor das bengalas a partir de 1993, tornaram os modelos BMW ainda mais tecnológicos e caros quando comparados às concorrêntes.

Estas soluções tecnológicas eram tão consolidadas nos setores de engenharia e projetos da BMW, que eram adotadas em todos os seus modelos, mesmo que estas soluções não fossem condizentes com a utilização, como no caso da K 1200 RS, que às vezes era criticada como uma esportiva pesada e pouco ágil por conta de suas suspensões exóticas e adoção de eixo-cardã, o que a tornavam inapropriada para competir com as rivais japonesas da Honda, Kawasaki, Suzuki e Yamaha ou mesmo outras européias como Triumph, Aprilia ou Ducati, tanto nas pistas, quanto nos preços.

A BMW começou a mudar de paradigma em 1994 quando lançou a Série F com a F 650 Funduro e F 650 ST Strada como seus primeiros modelos monocilíndricos desde a R27 produzida entre 1960 e 1966. Porém a grande mudança trazida por estes modelos foi a adoção da transmissão final por corrente e suspensões convencionais, o que tornavam estas motos muito mais leves e baratas que outros modelos de seu catálogo, abrindo o acesso às motocicletas BMW para um grande público, mais jovem e financeiramente mais modesto. Muitos se perguntavam se a BMW não perderia parte de sua reputação lançando motocicletas monocilíndricas "baratas". Mas vinte e cinco anos se passaram e esta estratégia da fabricante bávara se mostrou incrivelmente acertada, pois não só as vendas da empresa aumentaram, como novos produtos nasceram desta nova abordagem. Em 2006, a linha de monocilíndricas dual sport passou a ser designada pela Série G, enquanto a Série F, a partir de 2007, passou a comportar as motocicletas de dois cilíndros paralelos com refrigeração líquida. Outra grande conquista da BMW com sua mudança de filosofia, foi conseguir lançar uma autêntica superesportiva, a S 1000 RR em 2009. Graças à adoção da transmissão final por corrente e suspensões similares às de suas concorrentes, a S 1000 RR alcançou uma estrutura leve e compacta que a tornou numa referência instantânea entre as superesportivas, desbancando rivais consagradas como Yamaha YZF-R1, CBR 1000RR e Suzuki GSX-R 1000. E com o sucesso de sua linha de média cilindrada, a BMW deu continuidade à sua estratégia lançando motocicletas de baixa cilindrada com a city trail G 310 GS e a naked G 310 R, que apesar do tamanho, são aclamadas por seu bom acabamento e desempenho.

Outra mudança na mentalidade da BMW, ocorreu na virada do Século 21 com o lançamento do C1, um scooter com teto, pára-brisa e cinto de segurança. Disponível com motores Rotax de 125 cm³ e 200 cm³, contava com refrigeração líquida e injeção eletrônica de combustível. Foi produzido até 2002, quando foi descontinuado por apresentar baixas vendas e pelas críticas ao design a meio caminho entre um carro e uma motocicleta. Mas o ambrião de um scooter em sua linha de produção já estava inserido nos planos da fabricante alemã, e em 2010 os maxi-scooter C600 Sport e C650 GT foram apresentados durante o Salão Internacional de Milão, entrando em produção na fábrica de Berlim em Novembro de 2011 como linha 2012. Esta Série C demonstrou não apenas a capacidade da BMW em desenvolver um novo produto com alta qualidade para um determinado segmento do mercado, como demonstrou também, que mesmo fabricantes consolidados e tradicionais, devem ampiar seus horizontes junto ao consumidor.

Apesar do grande sucesso de sua linha mais acessível, a BMW continua investindo em suas tradicionais soluções de engenharia, como a adoção da refrigeração líquida em seus motores boxer bicilíndricos e o desenvolvimento da suspensão dianteira Duolever baseada no conceito Hossack/Fior, uma evolução da Telelever. A adoção de uma filosofia mais flexível não só deu à BMW mais saúde financeira, como a permitiu desenvolver novos produtos que ao lado de seus modelos tradicionais, mostrou ao mundo a capacidade deste fabricante em atuar em novos segmentos sem abrir mão de sua tradição e qualidade.

Desenvolvidos no final do século XIX como uma opção aos motores a quatro tempos do Ciclo Otto, os motores a dois tempos são mecanicamente mais simples, com menos partes móveis e com peso final consideravelmente menor. O fato de realizar seu ciclo térmico em apenas 2 etapas, estes motores geram praticamente o dobro dee potência em relação a um motor a quatro tempos de mesma cilindrada. Em outras palavras, é um motor simples e barato de ser fabricado e ainda oferecia um desempenho superior.

A relação entre as motocicletas e este tipo de motor começou em 1904 com a Scott patenteando o primeiro motor a 2 tempos para motocicletas. Em 1939 a alemã MZ desenvolvia a RT 125 que serviria de base para a inglesa BSA Bantam após a Segunda Guerra. Em 1962 Ernst Degner vence seu primeiro GP no Campeonato Mundial com uma Suzuki no Classe 50cc. E em 1970 a MZ produz sua milionésima motocicleta, uma ETS 250 Sport. A partir dos final dos anos 1960, todos os grandes fabricantes de motocicleta tinham suas representantes com motores a 2 tempos como a Suzuki Série GT, a Kawasaki tinha as Séries H1, H2, S1, S2 e S3 com motores de três cilindros em linha e a italiana Cagiva com sua série SST são alguns exemplos.

Mas dentre todos os fabricantes, a Yamaha se destacou no mundo dos motores a 2 tempos, não por ser uma pioneira, mas por ter sido uma das últimas a desistir da produção em massa de motocicletas com este tipo de motor. Desde seu primeiro modelo, a YA-1 de 1955, a Yamaha se especializou em modelos com motores a 2 tempos ganhando um perfil de marca esportiva graças ao desempenho de seus pequenos modelos em relação a motociletas maiores das concorrentes. Em 1960 lançou modelos com 250 cm³ e seu lendário motor bicilíndrico de 350 cm³ que equiparia a futura linha RD. Em meados dos anos 1970, as regulamentações ambientais e as preferências do mercado levaram a uma tendência favorável aos motores a 4 tempos, menos poluentes, mais econômicos e mais resistentes. Assim, em 1977 a Suzuki encerrava a produção de sua linha GT e a Kawasaki tirava sua linha 2 tempos do mercado em 1980. Com a proibição da comercialização de motocicletas de rua equipadas com motores a 2 tempos nos Estados Unidos, estas motocicletas ficariam cada vez mais restritas às pistas de competição.

Primera motocicleta com propulsor a 4 tempos da Yamaha, a XS-1 com motor bicilíndrico lançada em 1970 colocava a Yamaha em condições de continuar competitiva no mercado de motocicletas, e abria caminho para modelos como a TX 500 em 1973, Virago 750 em 1981 e a linha FJ em 1984. Mesmo com excelentes produtos com motores a 4 tempos, a Yamaha continuou comercializando produtos variados com motores 2 tempos como a pequena urbana RD 135Z até 1992, e a esportiva RD 350 até 1993 e a DT 200 R até o ano 2000, época em que as regulações ambientais ao redor do mundo tornaram os motores dois tempos inviáveis nas estradas e ao mesmo tempo surgiam modelos a 4 tempos que mostrariam os rumos da marca nos anos seguintes, como a linha esportiva YZF, as naked XJ e as grandes estradeiras da linha XVS. A partir de então as motocicletas a dois tempos produzidas pela Yamaha se limitavam a modelos de competição off-road com a linha YZ e WR, mas a esta altura, a fabricante japonesa já havia se tornado sinônimo de motores a 2 tempos na história do motociclismo.

Fundada em 1903, a Harley-Davidson sobreviveu à concorrência, a crises econômicas, às duas Guerras Mundiais e se tornou um dos grandes símbolos da indústria automotiva dos Estados Unidos. Empregada pelas Forças Armadas norte-americanas durande a Segunda Guerra Mundial, passou a ser companheira dos veteranos no Pós Guerra, se tornando base para o surgimento de milhares de motoclubes, que seguidos por milhões de entusiastas ao redor do mundo, adotariam a Harley-Davidson como elemento de sua cultura. Sua mecânica confiável e seu design clássico, passavam por aperfeiçoamentos ao longo das décadas, mas sem precisar de grandes mudanças, uma vez que os entusiastas da marca davam grande valor à conservação das tradições. Com a invasão no começo dos anos 1980 de motocicletas custom japonesas abertamente inspiradas nas Harley-Davidson, a imagem da marca se solidificou ainda mais como referência de como uma verdadeira motocicleta custom deveria ser feita. Mesmo com algumas experimentações em alguns momentos de sua história, como o scooter Topper de 1963 e a superesportiva VR 1000 de 1994, os puristas se apegavam aos modelos tradicionais como as Sportster surgidas no final dos anos 1950 e as Touring originadas das grandes motocicletas dos anos 1940 e 1950.

Em 1984, a Harley-Davidson lançou a FXST Softail, dando origem a toda uma gama de motocicletas equipadas com amortecedor traseiro monoshock escondido no quadro, equipadas com o novo motor Evolution. Em 1991, foi a vez do surgimento da família de motocicletas Dyna com a FXD Sturgis, uma gama de motocicletas de grande porte equipadas com amortecedores traseiros bi-choque, suspensão dianteria com bengalas mais largas que as Sportsters e um comportamento mais arisco e esportivo do que as Softail. Em 1999, seria a vez dos motores Twin-Cam surgirem com duplo comando de válvulas ainda acionados por varetas e uma versão "B", equipada com contra-balanceiros para diminuir as vibrações características das Harley-Davidson, o que causou uma certa antipatia dos seguidores mais purtistas da marca, que tinham a vibração do motores, como uma herança histórica da marca. Mas a grande polêmica chegaria junto com a virada do século: o lançamento de uma motocicleta com um motor refrigerado à água, com 4 válvulas por cilindro com duplo comando no cabeçote e como maior heresia, desenvolvido em parceria com a alemã Porsche. Nascia a VRSC V-Rod. Foi o bastante para acender a ira dos "harleyros" tradicionalistas que até mesmo ameaçavam abandonar a marca, caso aquele fosse o rumo a ser tomado dalí em diante. Existe até hoje a discussão sobre se a V-Rod pode ou não ser considerada uma legítima Harley-Davidson. Mas os anos se passaram, a Harley-Davidson não abandonou seus modelos tradicionais, os consumidores não abandonaram a marca... e a V-Rod continua a ser despresada pelo grupo de fãs e consumidores mais extremistas da marca.

Em 2011 rumores de que a marca de Milwaukee lançaria um modelo de média cilindrada a ser fabricado na Índia causou novo alvoroço entre os defensores da tradição Harley-Davidson que à época declararam repudiar qualquer modelo da marca equipado com um motor com menos de 883 cm³ das Sportster e que, pior ainda, fosse fabricado fora do solo norte-americano. Pois mesmo assim, a marca seguiu adiante e preferiu focar no mercado mundial e na concorrência, e em 2014, foi lançada a linha Street, com a XG 500 Street e XG 750 Street, ambas equipadas com um novo motor, o Revolution-X refrigerado à água. As novas motos começaram a ser fabricadas tanto em Kansas City, Estados Unidos, para o mercado norte-americano, quanto na cidade de Bawal, na Índia para serem exportadas pelo resto do mundo. E mais uma vez, a marca sobreviveu aos protestos de seus consumidores mais conservadores e se tornou ainda mais forte e relevante fora de seu mercado doméstico.

E ao que tudo indica, a Harley-Davidson deve continuar quebrando seus paradigmas e seus tabús lançando modelos inéditos que a colocarão num nível de diversificação nunca antes experimentado pela marca, como a LiveWire, sua primeira motocicleta totalmente elétrica apresentada em 2014 e com lançamento previsto para 2019; a Pan America, uma big trail de 1250 cilindradas e uma super naked ao estilo streetfighter de 975 cm³ a serem lançadas até 2022. Quem conhece a história da Harley-Davidson, sabe que a marca é especialista em sobreviver às dificuldades e a se reinventar, o que é bom para os novos consumidores e aos mais tradicionalistas que protestariam ainda mais se a marca não sobrevivesse aos novos tempos e deixasse de existir por se apegar demais às suas tradições.


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