A improvável história de Burt Munro

Contra todas as probabilidades, ele construiu sua própria moto, bateu vários recorde de velocidade e colocou a pequena cidade de Invercargill no mapa do motociclismo mundial

A improvável história de Burt Munro começa em março de 1899, quando ele nasceu na casa de seus pais na pequena cidade neozelandesa de Invercargill. Sua irmã gêmea morrera durante o parto e o médico havia decretado que ele não passaria dos dois anos de idade. Contrariando as expectativas Burt cresceu e começou a tomar gosto pela velocidade cavalgando os cavalos da fazenda da família em Edendale, oeste de Invercargill. Viagens de trens até o porto da cidade eram raros momentos de excitação, e a chegada de carros, motos e aviões à ilha, o faziam almejar uma vida fora da fazenda. Quando a Primeira Guerra Mundial eclodiu, Burt viu sua ida à guerra como uma chance de conhecer o mundo. Porém Munro permaneceu na fazenda da família até o fim da Guerra, quando seu pai vendeu a fazenda. Naquela época, Munro trabalhou na construção do túnel Otira até ser chamado para trabalhar com seu pai em uma fazenda recém-comprada. Depois disso, ele se tornou um piloto profissional, mas voltou para a fazenda familiar no início da Grande Depressão. Trabalhando como vendedor de motos e mecânico, ele correu com motocicletas e subiu ao topo da cena motociclística da Nova Zelândia correndo em Oreti Beach e depois em Melbourne, Austrália. Após a Segunda Guerra Mundial, Munro e sua esposa se divorciaram e, posteriormente, abandonou o trabalho para residir em uma garagem fechada.

Em 1915, Burt compraou sua primeira moto, uma Douglas e em 1919 ele havia guardado dinheiro suficiente para comprar uma Clyno com sidecar nova por £50. O sidecar logo foi removido e a moto entrou para as corridas locais. Recordes de velocidade eram estabelecidos no circuito de Fortrose, perto de Invercargill onde morava, mas a Clyno não seria mantida por muito tempo, quando a Indian entrou em cena. A troca pela Indian Scout, veio pelo conselho de Charles Franklin, empregado da Indian desde 1914 e o primeiro engenheiro treinado pela marca.

Nascido na Irlanda em 1886 e graduado pela Universidade de Ciências de Dublin em 1908, Franklin conseguiu um emprego no departamento de engenharia municipal de Dublin, mas logo começoou a se interessar pelo motociclismo e teve várias máquinas de várias marcas até começar a despertar interesse nas Indians em 1910. Ele começou a participar de corridas locais e suas habilidades e sucesso logo o levaram ao conhecimento do único importador britânico de Indians, Billy Wells. Billy foi membro da equipe Indian no Isle of Man TT de 1911, conquistando o segundo lugar atrás de Oliver Godfrey, e na frente de Arthur Moorhouse, todos pilotando Indians, um histórico primeiro, segundo e terceiro lugares connquistado pela mesma marca.

Franklin concebeu o projeto da Scout no início de 1912, através de seus estudos avançados sobre design de motocicletas, ele construiu um prototipo em 1919. Os testes foram satisfatórios e a produção se iniciou em setembro daquele ano como modelo 1920, começando com o motor número 5OR001.

A Scout tinha um motor de 600cc com 2 cilindros em V inclinados a 42º com válvulas laterais. A transmissão primária era acionada por engrenagens helicoidais com câmbio manual de 3 marchas com embreagem montada no pedal. A transmissão final era por corrente. O quadro era um berço duplo com suspensão rígida na traseira e feixe de molas na dianteira.

Burt começou a modificar sua moto em 1926 com metodos não muito ortodoxos: Burt utilizava um raio como micrômetro e moldava peças em velhas latas, embora um norte-americano tenha declarado que tê-lo visto moldando pistões nas areias de uma praia local. Ele construiu seu próprio projeto com quatro câmaras para substituir as câmaras duplas padrão e converteu as válvulas laterais para válvulas acionadas por varetas. Também fez seus próprios volantes, pistões, câmaras, guias e sistema de lubrificação. Burt esculpiu suas bielas à mão a partir do eixo de um trator Caterpillar, temperando-as para resistir a uma força de tração de 143 toneladas. Construiu também uma embreagem resistente a 450kg de pressão com dezessete discos com tripla corrente. Após seus experimentos com aerodinâmica, a versãoi final de sua moto estava escondida sob uma carenagem aerodinâmica integral. O garfo por eixo-de-molas foi substiuído por algo que parecia um garfo pantográfico. Passou a chamar sua moto de "Munro Special".

Tudo isto foi feito em meio século de trabalho e desenvolvimento. Originalmente a Scout era capaz de alcançar 88 km/h. Em 1926 ela correu na Penrith Mile Dirt Track em Nova Gales do Sul com sidecar acoplado com Wells como passageiro para uma volta de apenas 74 km/h. Apesar de seu começo pouco promissor, Burt ainda mantém o recorde australiano com sidecar conquistado em 1977 na Praia de Inverlock, Victoria com uma velocidade de 134 km/h.

Um sucessão de recordes em estradas e praias neozelandesas foram conquistados: em Fevereiro de 1957, ele estabeleceu o recorde de 211,44 km/h na praia neozelandesa de Open Beach, aumentando esta marca para 218,87 km/h em 1975 em Oreti Beach. Em Abril de 1957, ele estabeleceu o recorde em estrada em 231,09 km/h para motos de 750cc em Christchurch. Em Março de 1962 ele cobriu 1/4 de milha em Invercargill em 12.31 segundos.

Burt então um avô, visitou as planicies de sal de Bonneville várias vezes a aprtir de 1962. Naquele ano, ele estabeleceu o recorde de 288,03 km/h com seu motor de 850cc. Em 1963 uma biela quebrou enquanto ele corria a aproximadamente 313 km/h. Em 1966, seu motor tinha 920cc, quando Burt insatisfeito com sua velocidade final, o reconstruiu completamente. Em 1967, com seu motor alcançando as 950cc ele estabeleceu um recorde de 295,45 km/h para a categoria até 1000cc, que perdura até hoje. Para qualificar este recorde, ele fez um percurso único alcançando 305,89 km/h, o maior recorde de velocidade já oficialmente alcançado numa Indian.

Sua equipe em Bonneville consistia em entusiastas da Indian oriundos de todos os Estados Unidos, que vinham voluntariamente para dar ajuda e incentivo. "Comprei uma perua por 90 dólares em Los Angeles da última vez. E ela foi a sede da Equipe Indian", disse Burt numa entrevista.

O fato de ter nascido numa pequena e remota cidade da Nova Zelandia, ser fazendeiro e cardíaco, não impediu Burt Munro de construir e pilotar sua moto a mais de 300 km/h batendo recordes de velocidade. A improvável e incrível história de Burt Munro se encerrou em Dezembro de 1978, quando morreu de causas naturais. A Indian que foi sua por 57 anos, está nas mãos de um entusiasta neozelandês. Além da moto, Burt deixou uma lenda de habilidade, perseverança e coragem que tipifica a engenhosidade e a resistência do espírito da Nova Zelândia. Em 2006 foi incluído no Motorcycle Hall Of Fame.


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